quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Nepenthe, de Julianna Barwick, um remédio para a tristeza



Não há dúvida de que Julianna Barwick é uma das artistas mais prestigiadas da atualidade. Sua música, criada a partir da sobreposição de diferentes camadas da polifonia vocais, que Barwick arrastra, estende e repete ad infinitum. Às vezes acompanhada por outros instrumentos, mas sempre se mantendo em primeiro plano; é incomparável no cenário musical.
Grande parte do êxito dessa cantora nascida em Louisiana, EUA, vem de sua estreia, o magnífico debut “The Magic Place” (2011), e por isso não é nenhuma surpresa que sua sequência, “Nepenthe”, recém-lançado, se tornou um dos álbuns mais esperado do ano.

Ao contrário de seu antecessor, “Nepenhte”, recebe este título em circunstâncias nada felizes.  Barwick garante que “uma morte na família” inspirou a criação desse álbum e, portanto, “Nepenthe”, um medicamento utilizado para a depressão, não poderia ter um título mais apropriado – este álbum realmente soa como um bálsamo para a alma. A música de Barwick, de fato, não pode ser considera simplesmente sombria e triste: “Pyrrhic”, por exemplo, é um jogo de contrastes entre a luminosidade das vozes e o lúgubre das cordas, a demais, são canções profundas.






Em “Nepenthe”, portanto, ela continua expandindo seu estilo único, que consiste de loops e camadas de vocais sobrepostos banhados de reverb; o resultado são dez faixas de deslumbrante beleza, até mesmo difícil de acreditar. A música parece que veio do céu ou lá do mundo “do outro lado”, o que alguns infelizes a compara com a Enya, artista que tanto serviu de trilha-sonora para esotéricos cheios da grana praticar meditação, ou Brian Eno e seus álbuns de música ambiente – Mas que criatura em sã consciente usaria músicas como “The Harbinger” como música de fundo?

A real influência vem mesmo do Sigur Rós. Primeiro porque foi gravado no estúdio de Alex Sommers, em Reykjavík, Islândia, ou seja, a metade do Riceboy Sleeps, duo criado por Jónsi do Sigur Rós. Há também um coral de adolescentes e Amiina, a orquestra de cordas feminina, conhecida pelas contribuições em shows com o Sigur Rós. Não se encaixa “Pyrrhic” em “Valtari”?

O certo é que “Nepenthe” foi inspirado nas surreais paisagens islandesas, envolta de um cenário gélido, e em sua estadia, Julianna Barwick costumava fazer caminhada na região de Reykjavik. Portanto, pode-se dizer que é um álbum oceânico, no qual sua voz mergulha no infinito como em “Crystal Lake”, onde você se pergunta: de onde essas vozes estão vindo?
“Nepenthe” é um álbum para ouvir no silêncio e com silêncio dentro de si. Uma viagem para o mistério da vida, dentro e fora. Verdade que é um trabalho baseado em perdas, portanto, um álbum de luto. Porém, ele é um remédio para tristeza, porque suas canções buscam preencher a tristeza com algo mais substancial do que as alegrias oferecidas no mundo moderno, abraçar e ser absorvido pelo infinito.



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