sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Lady Gaga: “Artpop”, e a música?



Lady Gaga sempre fez tudo para chamar a atenção sobre ela, porque a música nunca foi inovadora por mais que tente passar essa imagem. Gaga tenta permanecer na vanguarda da música pop (aliás, ela nunca foi vanguarda), mas consegue apenas superficialmente. Por mais que ela tente, associando-se à pessoas da “alta cultura” pop, não consegue – neste novo álbum Artpop à referências a Botticelli (“O Nascimento de Vênus”), Bernini (“Apolo e Dafne”) e o atual Jeff Koon, que fez a capa - o que prova que continua seguindo os passos de Madonna, esta anos atrás, já havia recrutado cineastas, fotógrafos e estilistas para incrementar sua imagem e carregar seus clipes de referências às artes plásticas.

Ou que se ouve em Artpop é dance music do tipo eurodance – “Gypsy” e “Fashion”, por exemplo, é uma viagem aos sons dance dos anos 90.  “Applause” consegue os aplausos dela mesmo. “Dope”, seu momento piano e voz, produzida por Rick Rubin (como ele entrou numa fria dessas?), que poderia ser um destaque, acaba sendo estragado com o vocal exagerado e gritado – a tola bobagem de querer provar que também é uma grande cantora.

Gaga tem trabalhado nesse álbum com o produtor Dj White Shadow, Zedd, Madeon, Hugo Leclercq, Blair e Rick Rubin (“Dope”), entre outros. Ela também inclui colaboração com David Guetta e William na faixa “Fashion!”, e também participações especiais de T.I., Too $hort & Twista em Jewels n´Drugs e R. Kelly em “Do What U Want”. Ou seja, o mesmo que toda cantora pop de talento mediano faz, se acercando de grandes nomes; nada muito diferente de Katy Perry, Justin Timberlake ou Miley Cyrus.

Lady Gaga não é tão ruim, o problema é querer ser muito além do que é. Porque ter uma boa voz  - sim, ela tem – e ser a rainha da festa à fantasia, não quer dizer que suas músicas são maravilhosas. Ninguém explicou isso a Lady Gaga? Nem tudo que reluz é ouro, como cada pintura, escultura e fotografia é arte. E o mesmo se aplica as canções – não Stefani, este não é o álbum do milênio.

O problema de um personagem como Gaga, seu estilo bombástico e megalomaníaco, é que você espera grandes coisas, não só de seu novo vestido e o número de fãs que é capaz de regimentar – e grandes feitos não significa presepadas como strip-tease completo em um clube gay. Você espera grandes canções, mas isso não há em Artpop.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Nepenthe, de Julianna Barwick, um remédio para a tristeza



Não há dúvida de que Julianna Barwick é uma das artistas mais prestigiadas da atualidade. Sua música, criada a partir da sobreposição de diferentes camadas da polifonia vocais, que Barwick arrastra, estende e repete ad infinitum. Às vezes acompanhada por outros instrumentos, mas sempre se mantendo em primeiro plano; é incomparável no cenário musical.
Grande parte do êxito dessa cantora nascida em Louisiana, EUA, vem de sua estreia, o magnífico debut “The Magic Place” (2011), e por isso não é nenhuma surpresa que sua sequência, “Nepenthe”, recém-lançado, se tornou um dos álbuns mais esperado do ano.

Ao contrário de seu antecessor, “Nepenhte”, recebe este título em circunstâncias nada felizes.  Barwick garante que “uma morte na família” inspirou a criação desse álbum e, portanto, “Nepenthe”, um medicamento utilizado para a depressão, não poderia ter um título mais apropriado – este álbum realmente soa como um bálsamo para a alma. A música de Barwick, de fato, não pode ser considera simplesmente sombria e triste: “Pyrrhic”, por exemplo, é um jogo de contrastes entre a luminosidade das vozes e o lúgubre das cordas, a demais, são canções profundas.






Em “Nepenthe”, portanto, ela continua expandindo seu estilo único, que consiste de loops e camadas de vocais sobrepostos banhados de reverb; o resultado são dez faixas de deslumbrante beleza, até mesmo difícil de acreditar. A música parece que veio do céu ou lá do mundo “do outro lado”, o que alguns infelizes a compara com a Enya, artista que tanto serviu de trilha-sonora para esotéricos cheios da grana praticar meditação, ou Brian Eno e seus álbuns de música ambiente – Mas que criatura em sã consciente usaria músicas como “The Harbinger” como música de fundo?

A real influência vem mesmo do Sigur Rós. Primeiro porque foi gravado no estúdio de Alex Sommers, em Reykjavík, Islândia, ou seja, a metade do Riceboy Sleeps, duo criado por Jónsi do Sigur Rós. Há também um coral de adolescentes e Amiina, a orquestra de cordas feminina, conhecida pelas contribuições em shows com o Sigur Rós. Não se encaixa “Pyrrhic” em “Valtari”?

O certo é que “Nepenthe” foi inspirado nas surreais paisagens islandesas, envolta de um cenário gélido, e em sua estadia, Julianna Barwick costumava fazer caminhada na região de Reykjavik. Portanto, pode-se dizer que é um álbum oceânico, no qual sua voz mergulha no infinito como em “Crystal Lake”, onde você se pergunta: de onde essas vozes estão vindo?
“Nepenthe” é um álbum para ouvir no silêncio e com silêncio dentro de si. Uma viagem para o mistério da vida, dentro e fora. Verdade que é um trabalho baseado em perdas, portanto, um álbum de luto. Porém, ele é um remédio para tristeza, porque suas canções buscam preencher a tristeza com algo mais substancial do que as alegrias oferecidas no mundo moderno, abraçar e ser absorvido pelo infinito.