quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

John Coltrane – Ascension (1965)


Esqueça aqueles seus discos revolucionários de rock experimental, os quais buscavam ir além da música por meio da cacofonia e livre improvisação – nas intervenções de saxophone (tocado por Steve Mckay) de forma ensandecida do segundo disco do The Stooges, Full House; White Light/White Heat do Velve Underground, principalmente na zoeira cacofônica da faixa Sister Ray; nas experimentações sonoras do Sonic Youth ou os japoneses malucos e suas enormes jams do coletivo Acid Mothers Temple e o movimento No Wave de Lydia Lunch – esqueça todos eles.

Tudo não passava de apenas um exercício de algo que já foi feito no final de 1965 e por um sujeito que nem era “rebelde do rock” e sim do jazz – ou seria antijazz? Refiro-me ao músico John Coltrane, que foi muito mais “rock´n´roll” do que qualquer outro desse meio. E pior: arriscou sua carreira que entrava no auge com o elogiadíssimo "A Love Supreme".

Os críticos suavam a camisa esforçando para classificar aquela “coisa nova” (New Thing), termo que começavam a ser usado para descrever o novo som de Coltrane e sua trupe – três tenores (Trane, Pharoah Sanders, Archie Shepp), dois altos (Marion Brown, John Tchiacai), dois trompetes (Freddie Hubbard, Dewey Johnson), dois contrabaixistas (Art Davis, Jimmy Garrison) e dois bateristas (J. C. Moses e Rashied Ali).

"Ascension" lançado nas últimas semanas de 1965 e consiste de todo mundo solando seus instrumentos por mais de quarenta minutos! (depois vem a parte II com 38 minutos.) Não houve muita explicação por parte de Trane (John Coltrane) durante as sessões de gravação o que os músicos deveriam toca; obtiveram apenas algumas orientações.

Se em "A Love Supreme", sem dúvida a obra-prima, Coltrane compôs uma oração aos Senhor, uma tentativa de elevar a Alma ao Divino, em "Ascension" simplesmente tentava derrubar o céu trazendo-o para baixo.


Antes de "Ascension", Trane já vinha experimentando novos sons. O crítico, e fã, Dave Liebman conta sobre um show no Philharmonic Hall no qual participaria vários músicos. Coltrane fecharia a noite:

“Coltrane entrou no palco segurando a mão de Alice (sua esposa) e acompanhado com quase dez caras que pareciam ter sido achados na rua, segurando sacolas de compras com sinos, chocalhos e pandeiros. (...) Coltrane vai ao microfone e começa a entoar “Om Mani Padme Om” que era um canto tibetano dos mortos.

Alice começa a fazer um tremolo e o grupo balança os pandeiros e tudo mais, e as pessoas começam a se entreolhar achando aquilo esquisito. Então ele entra em My Favorite Things. Toca a melodia por cima desse rubato retumbante e as pessoas aplaudem. Mas, é claro, depois da melodia não houve mais nada reconhecível e isso durou uma hora e quinze, ou pelo menos pareceu (na verdade, foram 25 minutos). Não estou exagerando: pelo menos metade do público se levantou e foi embora.”

Sei de outra ocasião que Trane subiu ao palco até com um tocador de gaita de fole. E no ano seguinte (1967), ele planejava ir a Los Angeles ter aulas com Ravi Shankar, seu grande ídolo.

Só Deus mesmo saberia no que isso iria dar... a humanidade ainda não estava preparada e, portanto, Ele levou John Coltrane para o outro lado, para um Amor Supremo. Era 17 de julho de 1967.

Um comentário:

Adri disse...

Acho muito interessante seu interesse por ele... Desperta o meu também!