sábado, 31 de dezembro de 2011

Spirit of Eden (1988) - Talk Talk


Mundialmente conhecidos pelo hit It's My Life (ouça aqui) e a forçação de barra em categorizá-los como Oceanic Rock, o Talk Talk ao trilhar um novo caminho com Spirit of Eden, nunca mais conseguiu repetir o sucesso de seus trabalhos precedentes.

Se um dia foi chamado de clones do Duran Duran, seu quarto álbum avançaria na exploração de sonoridades acústicas, uma tendência que o álbum anterior - The Colour Spring - já deixava entrever. A audição nos revela basicamente uma longa suíte, na qual a intervenção do silêncio mostra-se tão fundamental quanto à dos próprios instrumentos.

Era o início de uma tendência jazzística – que os afastaria do universo pop -, texturas ambientes, sutilezas avant-garde,exploradas em uma complexidade e beleza delicada. I Believe In You um quase hit, apesar de seu formato mais pop, causa estranheza aos ouvidos que não têm paciência de prestar atenção em nada além do mainstream. Lamentável... A EMI logo findaria contrato com a banda, e só ouviríamos um novo álbum em 1991, pela Polydor, o derradeiro Laughing Stock.

Spirit of Eden, ignorado à época, hoje é considerado um percurso do pós-rock. O cantor e multi-instrumentista Mark Hollis, o baterista Lee Harris, o baixista Paul Webb e tecladista Simon Brenner eram excelentes músicos para ficarem restritos ao estilo synth pop do início de carreira.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Roberta Flack – First Take (1969)


Ela é conhecida por um dos maiores sucesso dos anos 70, a canção Killing Me Softly with His Song. Embora gravada por vários artistas ao longo dos anos - inclusive o Fugees -, foi com sua interpretação comovente que a música ficaria imortalizada em 1972.

Mas Roberta Flack vinha de uma longa história. Nascida a 10 de fevereiro de 1937, em Black Mountain, Carolina do Norte, cresceu como a maioria das crianças negras de sua época: cantando em coral de igreja. Mas foi seu amor ao piano a força condutora que a levou a se dedicar profissionalmente à música.

Adolescente talentosa, Roberta Flack tomou aulas de piano clássico e canto, enquanto seu excepcional desempenho acadêmico a levou a pular várias classes, tanto que teve, eventualmente, repetir um ano para não afetar o seu desenvolvimento. Aos 15 anos, entrou para a universidade de Howard, sendo a mais jovem estudante a se matricular nela, ao mesmo tempo em que tinha sua própria banda e tocava órgão na igreja.


Roberta Flack também foi a primeira aluna negra de Chevy Chas (Maryland), uma escola apenas para brancos. Ao se formar em música, quando começava seus estudos de pós-graduação, seu pai faleceu repentinamente, de modo que ela teve que passar a dar aulas de piano e inglês para a ajuda sua família.

Durante esse período, a carreira musical de Roberta Flack ganhou forma. Ela passa a acompanhar os cantores de ópera em um Clube de Washington, cantando o Blues durante os interlúdios. Em seguida, é notada pelo proprietário do clube 1520, onde começou a trabalhar duas noites por semana. Sua voz e sua abordagem única para clássicos modernistas lhe rendeu um público excepcional, entre os quais muitas vezes havia grandes nomes como Burt Bacharach , Woody Allen e Bill Cosby; convidava-os regularmente a compartilharem o palco com ela. No verão de 1968, Roberta fez teste para a gravadora Atlantic Records, famosa pelos seus artistas de soul e jazz (que incluía uma quantidade de artistas do porte de Ray Charles).


First Take, seu primeiro álbum, ainda não incluía Killing Me Softly With His Song, mas trazia canções envolventes, interpretações comoventes e seu primeiro sucesso The First Time Ever I Saw Your Face, composta por Ewan McColl – canção que se vingaria apenas em 1971 quando entrou para trilha sonora do filme Play Misty For Me, de Clint Eastwood.


Canções guiadas pelo seu piano e voz, que durante anos foi se aperfeiçoando nos clubes de Washington (onde foi descoberta), carregadas blues, soul e jazz fizeram com que músicas tradicionais como I Told Jesus cortasse nossos corações. Angelitos Negros e Our Ages or Our Hearts só um coração de pedra as deixariam passar despercebidas, enquanto Hey, That's No Way to Say Goodbye, consegue superar a própria versão origina de, Leonard Cohen. Para finalizar o álbum, não poderia ser de forma menos pungente, a linda Ballad of the Sad Young Men. A redenção está completa.

Tudo isso permeado com os arranjos singelos de cordas de William Fischer, dando ao álbum uma sensação majestosa de melancolia. Flack é acompanhada também pelo baixista Ron Carter , o baterista Ray Lucas, e o guitarrista John Pizzarelli.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

John Coltrane – Ascension (1965)


Esqueça aqueles seus discos revolucionários de rock experimental, os quais buscavam ir além da música por meio da cacofonia e livre improvisação – nas intervenções de saxophone (tocado por Steve Mckay) de forma ensandecida do segundo disco do The Stooges, Full House; White Light/White Heat do Velve Underground, principalmente na zoeira cacofônica da faixa Sister Ray; nas experimentações sonoras do Sonic Youth ou os japoneses malucos e suas enormes jams do coletivo Acid Mothers Temple e o movimento No Wave de Lydia Lunch – esqueça todos eles.

Tudo não passava de apenas um exercício de algo que já foi feito no final de 1965 e por um sujeito que nem era “rebelde do rock” e sim do jazz – ou seria antijazz? Refiro-me ao músico John Coltrane, que foi muito mais “rock´n´roll” do que qualquer outro desse meio. E pior: arriscou sua carreira que entrava no auge com o elogiadíssimo "A Love Supreme".

Os críticos suavam a camisa esforçando para classificar aquela “coisa nova” (New Thing), termo que começavam a ser usado para descrever o novo som de Coltrane e sua trupe – três tenores (Trane, Pharoah Sanders, Archie Shepp), dois altos (Marion Brown, John Tchiacai), dois trompetes (Freddie Hubbard, Dewey Johnson), dois contrabaixistas (Art Davis, Jimmy Garrison) e dois bateristas (J. C. Moses e Rashied Ali).

"Ascension" lançado nas últimas semanas de 1965 e consiste de todo mundo solando seus instrumentos por mais de quarenta minutos! (depois vem a parte II com 38 minutos.) Não houve muita explicação por parte de Trane (John Coltrane) durante as sessões de gravação o que os músicos deveriam toca; obtiveram apenas algumas orientações.

Se em "A Love Supreme", sem dúvida a obra-prima, Coltrane compôs uma oração aos Senhor, uma tentativa de elevar a Alma ao Divino, em "Ascension" simplesmente tentava derrubar o céu trazendo-o para baixo.


Antes de "Ascension", Trane já vinha experimentando novos sons. O crítico, e fã, Dave Liebman conta sobre um show no Philharmonic Hall no qual participaria vários músicos. Coltrane fecharia a noite:

“Coltrane entrou no palco segurando a mão de Alice (sua esposa) e acompanhado com quase dez caras que pareciam ter sido achados na rua, segurando sacolas de compras com sinos, chocalhos e pandeiros. (...) Coltrane vai ao microfone e começa a entoar “Om Mani Padme Om” que era um canto tibetano dos mortos.

Alice começa a fazer um tremolo e o grupo balança os pandeiros e tudo mais, e as pessoas começam a se entreolhar achando aquilo esquisito. Então ele entra em My Favorite Things. Toca a melodia por cima desse rubato retumbante e as pessoas aplaudem. Mas, é claro, depois da melodia não houve mais nada reconhecível e isso durou uma hora e quinze, ou pelo menos pareceu (na verdade, foram 25 minutos). Não estou exagerando: pelo menos metade do público se levantou e foi embora.”

Sei de outra ocasião que Trane subiu ao palco até com um tocador de gaita de fole. E no ano seguinte (1967), ele planejava ir a Los Angeles ter aulas com Ravi Shankar, seu grande ídolo.

Só Deus mesmo saberia no que isso iria dar... a humanidade ainda não estava preparada e, portanto, Ele levou John Coltrane para o outro lado, para um Amor Supremo. Era 17 de julho de 1967.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Debut de algumas bandas indie em 2011



The Sea Lions - Everything You Always to Know bout Sea Lions Butt Were Afraid to Ask (2011)

Esta banda está na ativa desde 2007. O que era um projeto do canadense Adrian Pillado tornou-se um sexteto e uma banda de verdade. Havia lançado umas demos com som bem ruim e um EP oficial em 2009 intitulado Let's Groove. Graças às performances ao vivo, como no Popfest, a banda fez seu nome na cena indie da Califórnia.

Este álbum de nome longo é o primeiro disco completo. Ai você pensa: isto parece àquelas bandas de meados dos anos 80, tipo Regressive Rock, Class 86 ou Anorak Rock – como the Bodiness, The Pastels – e, claro, as bandas da gravadora Sarah Records.

Nota-se também influência de surf music, o que acaba sendo um bom álbum para se ouvir na praia nesse verão.



Seapony - Go With Me (2011)

Também com álbum de estreia, o Seapony é de Seattle e gravam pela Sub Pop. O trio nevaga pelo Dream pop, meio surf music, lembrando Dum Dum Girls e Best Coast. São 12 faixas que não chega há ultrapassar 36 minutos.

Go With Me é uma coleção de canções simples e agradáveis – daquelas que nos primeiros segundos você já está acompanhado-as com os pés.

A banda é formada por Danny Rowland (principal compositor da banda) e sua namorada (ainda acho que é) Jen & Weidl nos vocais e conta com o baixista Ian Brewer, um amigo de infância de Rowland.



Still Corners - Creatures Of An Hour (2011)

Full-length do Still Corners. O album nos remete ao shogaze do My Blood Valentine, só que menos ácido e próximo do twee pop. Liderados pela cantora Tessa Murray,  a música também tende a nuances etéreos, psicodélicos, e cantado de forma sussurrada. Sombrio.

A banda é britânica e conta-se a lenda que foi formada  em uma estação de ônibus, quando o músico Greg Hughes convidou a cantora Tessa Murray para um projeto musical.

A fonte de inspiração vem de sons cinematográficos europeus, principalmente temas compostos por Ennio Morricone. É outra banda do selo Sub Pop.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Dorothy Ashby - The Rubaiyat of Dorothy Ashby (1969)



O Rubaiyat de Dorothy Ashby é seu disco mais espiritual, muito devido ao efeito da ainda recente morte de John Coltrane, em 1967 - o mais místico dos músicos de jazz. Ele que havia aberto caminho para um jazz mais espiritual, tendo sua influência reforçada ainda mais a espiritualidade em Pharoah Sanders e Alice Coltrane, já existente.

Rubaiyat dava sequência à parceria entre Ashby e Richard Evans (Afro-Harping, de 1968). A riqueza instrumento é maravilhosa, com Stu Katz tocando kalimba e vibes, Fred Katz kalmba, Cash McCall guitarra, Cliff Davis saxofone e Lenny Druss flauta oboé, baixo e piccolo. Ashby, por sua vez, aparece com sua harpa, o koto (instrumento japonês) e sua bela voz.

O álbum é conduzido por um ritmo hipnótico, exótico, ao mesmo tempo suave. Nele, encontramos soul, jazz, rock, bossa-nova, funk e um groove que nos remete ainda ao inexistente hip hop. Os arranjos de cordas a cargo de Evans, além de embelezar as canções, ajuda a criar um clima oriental e místico. Interessante, é que todos esses ritmos aparecem, às vezes, em uma mesma música. Clássico!

Dorothy Ashby foi uma artista singular. Nasceu na cidade de Detroit, em 1932, e bem jovem demonstrou talento para o piano. No entanto, estava em busca de um som diferente, e se empenhou a encontrá-lo um pouco mais tarde quando se decidiu a abandonar as teclas e enamorar-se da harpa.

Não há muitos exemplos de destaque de mulheres harpistas voltadas ao jazz - excetuando Adele Girard -, Ashby dedicou sua vida para preencher esse buraco com determinação e talento. Ainda mais, porque o início dos anos cinqüenta, com o advento da estética do bebop, acrescentou-se mais um desafio às mulheres. Decidida, ao lado de seus mais conhecidos e celebrados companheiros do sexo masculino, que arrasavam com saxofones, trompetes e pianos, ela impôs sua harpa – apesar da resistência de seus companheiros do Trio Ashby.

Ao lado de Alice Coltrane, Ashby é a maior harpista negra do jazz, levando seu instrumento a ir além do jazz, unindo-se também ao R&B, o soul e a música oriental – a utilização do koto, um instrumento japonês, o que pode ouvir neste Rubaiyat e no qual utiliza-se de guitarra, aproximando-a muito do jazz-rock (fusion).

Dorothy Ashby no Brasil é praticamente uma desconhecida. Mesmo tendo colaborado com artistas famosos como Louis Armstrong, Diana Ross, Dionne Warwick, Earth, Wind & Fire e Stevie Wonder. Além de ter música sampleada por artistas de hip hop – Ugly Duckling, Murs e Pete Rock.

Dorhty também se dedicou ao teatro, escrevendo todas as letras e fazendo todos os arranjos das canções nas peças que produzia junto ao marido. Sua harpa é destaque na canção "Come Live With Me", que está na trilha sonora para o filme de 1967, “O Vale das Bonecas”.

Ashby morreu de câncer a 13 de abril de 1986, em Santa Monica, California , 53 anos.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

The Yardbirds – Five Live Yardbirds (1964)


Esta é a estréia da longa carreira de Eric Clapton, quando se iniciava ao lado do Yardbirds em um disco de blues-rock – logo sairia da banda devido a eles optarem por um direcionamento mais pop e, em seguida, uma linha mais psicodélica e hard rock, no caso, quando Jimmy Page tomou as rédeas do grupo.

Eric Clapton não duraria no Yardbirds, insatisfeito com o single For You Love, uma canção pop a qual ele mal contribui - se dizia um “purista do blues” - e foi tocar com John Mayall & the Bluesbreakers, uma banda que para ele defendia o blues.


Futuramente Eric reconheceria que era bastante radical em seu purismo blueseiro e o que ele um dia condenou e o fez sair do Yardbirds (o single pop de For Your Love), ele faria, principalmente em sua carreira solo, músicas bem mais pop; sua curta parceria com Phil Collins é uma prova disso.

Five Live Yardbirds é um álbum ao vivo e foi ficando popular de acordo em que a fama de Eric Clapton aumentava. Gravado no Marquee Club de Londres e produzido por Giorgio Gomelsky, sujeito que queria empresariar os Rolling Stones, mas perdeu para Andrew Loog Oldham, não perdeu a chance com os sucessores deles no Crawdaddy Club, de sua propriedade.

A banda em sua estréia interpretava canções de R&B e Blues. Eric já tinha ganhado o apelido de Showhand, dado por Gomelsky. O grupo serviu de modelo pra muitas outras de blues elétrico que viriam em seguida.

domingo, 4 de dezembro de 2011

The Beau Brummels – Triangle (1967)


Eles ficaram famosos com o sucesso Laugh Laugh, de 1963, o que os levou até a aparecer em um episódio dos Flinstones. The Beau Brummels era de São Francisco e já fazia sucesso em uma época anterior ao movimento hippie com toda aquela conversa de flower-power. O visual, portanto, era de bons moços, bem ao estilo “Beatles 65” – o nome Brummels Beau veio de um termo usado para descrever um almofadinha. E 1965 era o ano da estreia em vinil dos rapazes, Introducing The Beau Brummels, no qual trazia além de Laugh Laugh, o hit Just a Little.

Apesar de ser norte-americanos, a música defendida pelo grupo estava mais em sintonia com os grupos britânicos como The Beatles e The Zombies, embora houvesse uma crescente veia country, que fez do último álbum, Barn Bradley (68), quase um tributo ao estilo.


A banda era centrada nos músicos Sal Valentino e Ron Elliott, sendo que este último era o principal compositor. Triangle, o terceiro álbum, foi produzido quando Elliott se descobriu diabético e a banda resolveu parar de excursionar, passando assim, a concentrar nos estúdios. Procedimento que fez com que Triangle fosse álbum mais rico, cheio de sutilezas pop.

A variedade de estilos - folk, psicodelia, country, pop – chega a um equilíbrio quase perfeito. A pesar das críticas positivas do álbum, Triangle foi ignorado e esquecido rapidamente. No entanto, a banda se manteve viva ganhando popularidade ao longo dos anos, fazendo com que um novo público se deslumbrar com as composições excelentes e pessoais de Ron Elliot e a voz rica e expressiva de Sal Valentino.