quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Gênio incompreendido - Richard Ashcroft


Richard Ashcroft está de volta - ele que foi o grande vocalista da banda The Verve. Sua carreira solo é magnífica, embora não faça muito sucesso, mesmo quando voltou com sua ex-banda em 2008, a repercussão estrondosa de Urban Hymns (1997) não se repetiu. Não é difícil de entender, afinal, muito da fama deste álbum veio de “Bittersweet Symphony” que tornou um mega-hit e conquistou a massa pop. É aí que está todo o problema: a massa pop! Ela só se interessa por mega-hits.

O primeiro trabalho solo, “Alone With Everybody” até chegou a chamar a atenção da mídia e obteve um hit: “A Song for the Lovers” uma canção inspirada no Joy Division, cujo título Ashcroft confessou que roubou de um poema de Charles Bukowski. Seguiram-se mais alguns álbuns (maravilhosos por sinal), mas sua música se tornou muito adulta para o público jovem, que até então o idolatrava e o via como um provável porta-voz de uma geração. "Eu não estou interessado em ser um pregador, eu não quero prêmios, eu não quero multidões me seguindo, eu só quero continuar fazendo minhas canções.", declarou Ashcroft em certa altura de sua carreira solo.

Fã do cantor Gene Clark (tocou no The Byrds), Sly and the Family Stone e uma veneração por John Lennon, que nunca escondeu. Richard sempre encarnou o gênio incompreendido. Filho primogênito, seguido por duas irmãs, Victoria e Laura, durante seus primeiros dez anos de vida passou por constantes visitas ao médico, com uma variedade de doenças devido ao seu corpo magro. Na idade de onze anos, perdeu o pai – este acontecimento teve um enorme efeito em sua formação, que o fez desenvolver uma personalidade mais séria em relação à sua idade.
Em entrevistas sobre sua infância, comentou certa vez: “as outras crianças brincavam com figuras de ação quando eu só questionava a vida e a sociedade.” Seu desinteresse geral pela escola o fez um estudante impopular e indesejado pelos professores. Mas encontrou uma fuga no esporte. Na idade de treze anos foi um dos melhores no time de futebol da escola - pensou seriamente em ser jogador profissional -, mas logo encontrou outra paixão: a música. Em uma entrevista ele disse “sempre foi uma pessoa deprimida, e que a música o ajudou a superar esse problema.”

Richard Ashcroft junto a alguns amigos montou o Verve (só anos mais tarde mudou para The Verve) em 1989 e com a banda, veio as drogas. Ainda no início da carreira, quando promoviam o álbum “A Storm in Heaven” (1993), ele já passava por sérios problemas com drogas, chegando a sofrer desidratação severa devido ao abuso delas antes de um show.
Apesar da banda sempre dizerem que estava encerrando as atividades sempre voltavam. E numa dessas voltas foi lançado Urban Hymns (1997), sem dúvida uma obra-prima irretocável. Assim o The Verve entrou para história do rock.

Mesmo satisfeito em estar em carreira solo, Richard sempre sentiu falta de estar numa banda e, portanto, em 2010 resolveu montar uma chamada RPA& The United Nations of Sound, mas ele é o líder e autor de todas as composições. No entanto, recebeu ajuda, queria modernizar sua música e chamou convidou para produzir o álbum No ID, produtor norte-americano de hip hop e sujeito famoso por produzir o rapper Jay-Z. Mas por que um produtor de hip hop? Richard sempre disse que a música “Bitter Sweet Symphony” teve inspiração nesse estilo.
Na cola, veio o lendário Benjamin Wright para contribuir com arranjos de cordas. Wright já trabalhou com uma variedade de artistas que vão de Aretha Franklin a Outkast e foi responsável pelos arranjos em “Thriller” de Michael Jackson.

Portanto, RPA& The United Nations of Sound, soa moderno, eclético, ao mesmo tempo em que mantém as características principais de Richard Ashcroft. Realmente o álbum tem mais cara de banda, trazendo influência de rap (Thrid Eye), soul (Life Can Be So Beautiful) e gospel (“Glory”). Também pega emprestado riff alheio, no caso John Lee Hooker em How Deep Is Your Man e Velvet Underground, na qual você jura que é um cover the Sweet Jane até entrar a letra. E como sempre, Richard é mestre em fazer belas baladas, aqui aparece com “She Brings Me the Music”, uma em homenagem a sua esposa Kate Radley e “Good Loving”.

O álbum não tem sido muito bem sucedido, como os singles lançados, já que as críticas foram em geral negativas, embora estreou no número 20 nas paradas no Reino Unido , mas caindo na semana seguinte indo para o número 59.
Que importância isso tem? Veja os artistas que dominam as paradas de sucesso e que vendem milhões de álbuns. Tirando raras exceções, são medíocres. Mas Richard Ashcroft é um gênio, e como todo gênio é incompreendido em sua época.


RPA and the United Nations of Sound - Are You... por EMI_Music

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Josh Ritter, artista ainda desconhecido do grande público no Brasil


Pouco importa se a música de Josh Ritter não ficou muito popular junto à massa pop. Pouco importa se não toca nas rádios. Pouco importa, também, se ele não consta nas listas de iPods dos descolados, não é citado pelos “famosos” e não toca nas baladas mais agitadas do momento. O que importa é que sua música existe e é ótima. Talvez daqui uns 20 anos, algum arqueólogo musical o descobrirá e ele passará a ser idolatrado – nunca sabemos o que a juventude vai cultuar no futuro.

Josh Ritter moldou sua música ouvindo mestres como Bob Dylan, Leonard Cohen e Johnny Cash. Ele já tem uma pancada de discos lançados; é um cara ainda jovem – lançou seu primeiro álbum em 2000. E sabe o que é legal no seu folk-pop-indie? É que ao mesmo tempo em que sua música parece antiga, feita lá pelos idos dos anos 70, soa moderna.

Seu último trabalho se chama “So Runs The World Away”, de 2010, e recentemente o rapaz lançou um romance chamado “Bright´s Passage”. Nascido em Moscow, Idaho (EUA), quando garoto ouviu a canção “Girl Form the North Country” de Bob Dylan, do álbum Nashville Skyline e resolveu ser músico. Primeiramente tentou fazer musica em um alaúde construído pelo seu pai, mas logo comprou sua primeira guitarra. Seu primeiro trabalho autointitulado não passou desapercebido, mas após o segundo, “Golden Age of Radio” sua carreira decolou. De lá pra cá sempre recebeu grandes elogios da crítica,nem tanto do grande público. Ou seja, este cara é cult.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Sensibilidade indie de Saharan Gazelle Boy


Synthpop feito pela geração Z carregado por uma sensibilidade indie nostálgica. Assim podemos definir este projeto chamado Saharan Gazelle Boy, criado pelo músico da banda Capybara, Darin Seal. A idéia vem desde que Seal tinha 16 anos, quando imaginava em fazer canções ensolaradas e despojadas, diferentes do Capybara, que é algo mais sério.

Saharan Gazelle Boy já produziu dois EP´s: são eles Airplanes Can´t (2009) e Strange Teen Heart (2010), este último tem contribuição de sua amiga Sarah Handelman (também do Sea Change), que ajudou com a produção do álbum e fez alguns vocais e tocou teclado. Ambos saíram pela Record Machine, aliás selo que têm lançado o melhor do indie (veja aqui)

Sabe aquelas músicas que são boas de curtirem quando vai ao parque em um domingo, comer algodão doce e brincar com as crianças? Pois é. Saharan Gazelle Boy cai bem nesses momentos. Muito porque as canções carregam ares de ingenuidade, tranqüilas e melancólicas (mas não depressivas). “Song Cupid”, por exemplo poderia muito bem ter sido gravada pelo New Order. É uma faixa viciante que parece que feita em 1984, não em 2010.



domingo, 9 de outubro de 2011

Ten Years After - A Space in Time (1971)


Depois de Jimi Hendrix, ninguém além de Alvin Lee, guitarrista e líder do Ten Years After chamou mais a atenção no primeiro Woodstock, em 1969. As imagens antológicas da banda tocando a versão longuíssima de “I´m Going Home” confirmam a merecida colocação de segundo melhor guitarrista do festival – quem não se lembra da cena de Lee, ao final da apresentação, carregando uma melancia nas costas? Dizem que ele a pegou na fazendo.

Se a partir dos anos 1980 apareceram guitarristas preocupados em fazer solos na velocidade da luz, temos em Alvin Lee, o primeiro a ganhar a fama de guitarrista mais rápido do mundo – sim, é dele o título de guitarrista mais veloz daquela época.

Blues, rock´n´roll, psicodelia e forte influência de jazz eram a receita dos primeiros álbuns – Ten Years After (1967), Stonehenge (1968) e Undead (1968). Trabalhos mais pesados, já afastando um pouco da influência jazzística e psicodélica, vieram com Ssssh (1969) e Cricklewood Green (1970), fazendo do Ten Years After um dos grandes nomes do blues rock.

Já longe da associação com o Woodstock e com uma sonoridade mais próximo de bandas como Free e Led Zeppelin, principalmente deste último, na qual intercalava blues pesados com baladas acústica, o Ten Years After lança em 1971 “A Space in Time” no qual traz seu maior hit “I'd Love to Change the World”. Outras canções que marcaram época foram “Over The Hill”, “Hard Monkeys” e “I´ve Been There Too”. Tudo dentro de uma produção impecável e arranjos mais bem trabalhados.

“A Space in Time” encerra o auge da banda, e lentamente o grupo vai entrando em declínio, o sucesso do álbum levou-os a longas turnês pelo EUA, que os desgastou bastante, principalmente Alvin Lee que se recusava a ser um “jukebox andante”. “Positive Vibrations”, de 1974, seria o último esforço nos anos 1970. O grupo só voltaria a se reunir no final da década de 1980, mas sem a mesma magia do passado.

domingo, 2 de outubro de 2011

Zola Jesus - Conatus (2011)



“Minha música vai sempre soar Zola Jesus”

Este novo trabalho de Zola Jesus, como já era de se esperar, pelo que se ouviu em seus últimos trabalhos, soa mais acessível. No entanto as canções são puro Zola Jesus, o que significa que ela continua tendo como referência o gótico dos anos 80 (principalmente Siouxsie and the Banshees e Diamanda Galas), mas também certas tendências mais líricas dos anos 90 e synth pop sombrio.

Conatus é o terceiro álbum da cantora, sem contar os vários EP´s e singles, que segunda ela é uma celebração à dança. Antes do lançamento oficial, 04 de outubro de 2011, fomos agraciados por dois singles, “Vessel” e “Seekir”. Ambas as canções mostram que Zola Jesus está cantando bem melhor, mostrando-se bem mais segura – ainda bem que ela desistiu de fazer o álbum totalmente instrumental.

Os sons eletrônicos estão mais refinados e traz arranjos de cordas que só fez com que sua música ficasse mais rica como na maravilhosa “In Your Nature” e “Hikikomori” – sabiam que a música preferida dos Beatles para ela é “Eleanor Rigby”?. A balada ao piano “Skin”, talvez seja a mais bonita de sua carreira até o momento.

Todas as canções de Conatus foram escritas por Zola, enquanto a produção é compartilhada com Brian Foote.


Nika Roza Danilova inventou a identidade de Zola Jesus aos 15 anos, quando resolveu apagar sua identidade original, numa espécie de auto-alienação concedida. Deparou-se com um livro de Emile Zola e pensou que o nome soava bem. Por ser uma combinação incongruente com Jesus, gostou. Afinal Zola e Jesus eram revolucionários, ela costuma justificar.

Passou parte da infância em Phoenix, Arizona, e adolescência em Madison, Wisconsin, antes de se mudar para Los Angeles. Não tinha nada em comum com os adolescentes da sua idade que só ouvia música pop, muitas vezes, entendidas como “alternativas”. Sua sintonia era com seu irmão altista de quem se sentia muito próxima. Para ela, seu irmão tem uma maneira de perceber a realidade bem diferente, um mundo que pertence somente a ele. Mundo esse, que acabou se refletindo em sua música.

Nika estava destinada a seguir uma carreira de cantora de ópera. Estudou canto intensamente por dez anos - começou aos nove anos. Desistiu da ópera e resolveu fazer sua própria música. Ela sempre se sentiu distante do mito sexo, drogas e rock´n´roll. Ela acredita que as pessoas hoje estão desesperadas para se tornarem celebridades. “Elas sonham em ser ricas, mas ficam cada vez mais egoístas enquanto artistas mais criativos e autênticos são normalmente condenados ao anonimato e à marginalidade”. Dostoiévski, Gogol e Turgenev estão entre seus escritores favoritos.

Se você está cansado de cantoras pop excêntricas que não sabem mais o que fazer pra conquistar o público, Zola Jesus é uma boa pedida.