terça-feira, 15 de junho de 2010

MOBY GRAPE


Na efervescente San Francisco entre 66/67, eles não destoavam em imagem e atitude de seus conterrâneos hippies como jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service. Mas enquanto estes seguiam à risca a cartilha psicodélica de temas longos e improvisações, o Moby Grape se concentrava em canções bem delineadas, que fundiam o som lisérgico a harmonias do folk rock de Los Angeles, via The Byrds e Buffalo Springfield.


O embrião do grupo se chamava The Frantics e tocava no circuito entre o norte da Califórnia e Seattle. O núcleo era o guitarrista Jerry Miller, o baixista Bob Mosley e o baterista Don Stevenson. No fim de 1966, eles foram para San Francisco na emergente onda psicodélica. Lá conheceram Peter Lewis (filho da atriz Loretta Young, que era líder e guitarrista da banda Peter And The Wolves) e Alexander "Skip" Spence (um canadense descolado na cena freak, que já havia tocado guitarra nos primórdios do Quicksilver Messenger Service e até bateria no disco de estréia do Jefferson Airplane).


O quinteto teve uma projeção relâmpago, devido à afiadíssima condução das guitarras de Spence/Miller/Lewis e ao entrosamento vocal. Mas não era só: todos os cinco eram compositores - e dos bons -, o que garantia não só a qualidade, mas também a diversidade de suas canções.  Infelizmente devido a problemas internos que terminariam culminando com o desaparecimento do grupo poucos anos depois de sua criação.

Tudo começou com o esquema surreal que cercou seu álbum de estréia homônimo. Descobertos pelo produtor David Rubinson, eles assinaram com a Columbia. No início de 67, gravaram o disco em três semanas, praticamente ao vivo - à exceção dos vocais. Rubinson estava tão certo que seria uma tacada certeira que convenceu a gravadora a lançar dez das treze faixas em cinco compactos 45 rpm, simultaneamente! O único a figurar na Billboard (88°) foi "Omaha", de "Skip" Spence. Esta estratégia comercial suicida culminou com a festa de lançamento, com direito a situações insólitas tais como uma chuva de dez mil orquídeas sobre os convidados (que ficaram levando tombos ao escorregar nas pétalas amassadas), setecentas garrafas de vinho e nenhum abridor, além da posterior prisão de Miller, Lewis e Spence por estarem portando maconha na companhia de três garotas menores de idade. A conduta pouco ortodoxa deles não agradou em nada à gravadora, já irritada por ter que "apagar" da foto na capa do álbum o dedo médio de Don Stevenson, em posição de "fuck you".

Assim, eles foram despachados para Nova York e intimados a fazer um disco mais "normal". O que saiu não foi exatamente isso, mas Wow, uma colcha de retalhos remendada por sopros e cordas, que mesmo assim possuía vários momentos brilhantes. Nota: apesar de a rotação original ser 33 rpm, o álbum tinha uma faixa para ser tocada em 78 rpm e era acompanhado pelo disco-bônus Grape jam, com gravações ao vivo do grupo junto ao tecladista Al Kooper e ao guitarrista Mike Bloomfield.

A essa altura, a banda já dava os primeiros sintomas de desintegração, com Spence cada vez mais se encharcando de LSD e cometendo loucuras como correr por um hotel atrás de Don Stevenson com um machado! "Skip" não tardou em abandonar o grupo, que logo se desfez para voltar em seguida sem ele, no álbum "Moby Grape ´69', puxado para o country e o rhythm´n´blues. Já sem Mosley, o trio remanescente fez "Truly Fine Citizen" em 70, um disco ainda mais voltado para a música de raízes e que foi o real epitáfio da banda. Mais tarde, Mosley também abandona o barco, ops... quero dizer, entrar no barco, porque resolveu mudar de vida e tornar-se marinheiro.

Depois disso, seus membros tentaram se reunir por várias vezes, eventualmente usando nomes diferentes, devido ao fato de um antigo manager possuir a posse legal da marca Moby Grape.

É bom lembrar que ainda em 1971, houve uma reunião do quinteto original que daria como fruto o  álbum “20 granite creek”, um interessante trabalho produzido por David Rubinson. Moby Grape continuaria aparecendo e desaparecendo de cena, convertidos com o passar dos anos em um grupo de culto e atuando em pequenos locais para o deleite de plateia.

Alexander “Skip” Spencer faleceria em 16 de abril de 1999, por problemas derivados de sua saúde mental – ele nunca bateu muito bem mesmo da cabeça. Bob Mosley, por sua vez, iria ser diagnosticado com esquizofrenia.

2 comentários:

Adri disse...

Seu post me fez lembrar do Top Top MTV que vi essa semana. Acho que a década de 60 foi um divisor de águas na história da música contemporânea.
Já ouvi Moby Grape com você em sua casa e, se não me engano, me lembro de ter ouvido você me contar sobre essa história do machado. A música deles é boa pra pegar uma estrada e viajar, não acha?
Beijos

Mary Joe disse...

Cláudio, gostei mais do post do que da banda...
Agora, acho o máximo como vc sabe de coisas do além... como uma chuva de orquídeas. (fiquei daqui tentando imaginar isso).
Sempre me divirto com seu blog.
Beijo carinhoso
Mary