terça-feira, 29 de junho de 2010

Paul´s Boutique (1989) – Beastie Boys

Uma obra-prima que passou despercebida


Nunca esqueci quando vi os três patetas do hip-hop (não confundam com rap) – Mike Diamond, Adam Horovitz e Adam Yauch – pela primeira vez quando lançaram o Fight for Your Right to Party em 1986; uma mistura de hip-hop com heavy metal, versos malucos, muita cerveja, mulheres e festas – festas! Sim, amigos da época diziam que os Beastie Boys chegavam a organizarem festas que duravam até três dias, regadas a orgia de pizza, maconha, mulheres e muita cerveja. Claro, eles tinham muito que festejar, pois seu primeiro álbum, License to III, foi o primeiro LP de hip hop a chegar ao número 1 das listas Billboards. O sucesso dos garotos foi tanto que chegaram a abrir shows para Madonna, sendo que a “rainha do pop” estava em seu auge excursionando com sua Material Girl (o público dela os odiava). Nada mal para uma banda que começou nos subúrbios de Nova York envolvidos com o hardcore local.

Contudo, os Beastie Boys cresceram. Crescerem não só musicalmente como seres humanos também – Adam Yauch chegou a converter-se ao Budismo, e tanto quanto os outros dois, tornaram-se pais e famílias e empresários. Claro, a mudança foi gradativa e o primeiro passo foi dado em 1989 com esse “Paul´s Boutique”. Um trabalho que não vendeu nada e passou quase que despercebido pela mídia. Mas convenhamos: sem este trabalho eles nunca chegariam ao sucesso que foi o álbum seguinte, Check Your Head (1992).

O LP começa com um levinho blues psicodélico e emenda num sacolejante funk Miami com um corinho deslavadamente disco. Seguem-se piadinhas, palavrões, flertes de soul com pilhas de samples classics numa colagem non-stop que era pura molecagem - Johnny Cash, Yosemite Sam. The Isleys, Sweet, a trilha de Psicose, colagens magníficas com samples de Kraftwer, Bob Dylan, Beatles e Led Zeppelin. É divertido você por o disco para ouvir e ficar reconhecendo a genial mistura de samples. E é mais legal ainda se você já possui um grande conhecimento musical. Sem isso, você simplesmente fica boiando.

Paul`s Boutique foi uma mistura de canções com proporções quase míticas. Cortaram e pegaram em pequenas samples que foi transformadas num dos mais importantes comunicados da subcultura dos anos 1990. O coeficiente de inteligência do álbum era exatamente o contrário do anterior. Mesclando referências clássicas com as do pop, acrescentaram rimas inteligentes com um som de influências de rock, funk e disco. Paul`s Boutique mostrou visivelmente que os Beastie Boys eram mestres musicais talentosos com mão sob o seu próprio destino artístico.

“Tudo que fizemos até hoje foi de brincadeira. Nunca achamos que fossem levar a sério”
Yauch



terça-feira, 15 de junho de 2010

MOBY GRAPE


Na efervescente San Francisco entre 66/67, eles não destoavam em imagem e atitude de seus conterrâneos hippies como jefferson Airplane, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service. Mas enquanto estes seguiam à risca a cartilha psicodélica de temas longos e improvisações, o Moby Grape se concentrava em canções bem delineadas, que fundiam o som lisérgico a harmonias do folk rock de Los Angeles, via The Byrds e Buffalo Springfield.


O embrião do grupo se chamava The Frantics e tocava no circuito entre o norte da Califórnia e Seattle. O núcleo era o guitarrista Jerry Miller, o baixista Bob Mosley e o baterista Don Stevenson. No fim de 1966, eles foram para San Francisco na emergente onda psicodélica. Lá conheceram Peter Lewis (filho da atriz Loretta Young, que era líder e guitarrista da banda Peter And The Wolves) e Alexander "Skip" Spence (um canadense descolado na cena freak, que já havia tocado guitarra nos primórdios do Quicksilver Messenger Service e até bateria no disco de estréia do Jefferson Airplane).


O quinteto teve uma projeção relâmpago, devido à afiadíssima condução das guitarras de Spence/Miller/Lewis e ao entrosamento vocal. Mas não era só: todos os cinco eram compositores - e dos bons -, o que garantia não só a qualidade, mas também a diversidade de suas canções.  Infelizmente devido a problemas internos que terminariam culminando com o desaparecimento do grupo poucos anos depois de sua criação.

Tudo começou com o esquema surreal que cercou seu álbum de estréia homônimo. Descobertos pelo produtor David Rubinson, eles assinaram com a Columbia. No início de 67, gravaram o disco em três semanas, praticamente ao vivo - à exceção dos vocais. Rubinson estava tão certo que seria uma tacada certeira que convenceu a gravadora a lançar dez das treze faixas em cinco compactos 45 rpm, simultaneamente! O único a figurar na Billboard (88°) foi "Omaha", de "Skip" Spence. Esta estratégia comercial suicida culminou com a festa de lançamento, com direito a situações insólitas tais como uma chuva de dez mil orquídeas sobre os convidados (que ficaram levando tombos ao escorregar nas pétalas amassadas), setecentas garrafas de vinho e nenhum abridor, além da posterior prisão de Miller, Lewis e Spence por estarem portando maconha na companhia de três garotas menores de idade. A conduta pouco ortodoxa deles não agradou em nada à gravadora, já irritada por ter que "apagar" da foto na capa do álbum o dedo médio de Don Stevenson, em posição de "fuck you".

Assim, eles foram despachados para Nova York e intimados a fazer um disco mais "normal". O que saiu não foi exatamente isso, mas Wow, uma colcha de retalhos remendada por sopros e cordas, que mesmo assim possuía vários momentos brilhantes. Nota: apesar de a rotação original ser 33 rpm, o álbum tinha uma faixa para ser tocada em 78 rpm e era acompanhado pelo disco-bônus Grape jam, com gravações ao vivo do grupo junto ao tecladista Al Kooper e ao guitarrista Mike Bloomfield.

A essa altura, a banda já dava os primeiros sintomas de desintegração, com Spence cada vez mais se encharcando de LSD e cometendo loucuras como correr por um hotel atrás de Don Stevenson com um machado! "Skip" não tardou em abandonar o grupo, que logo se desfez para voltar em seguida sem ele, no álbum "Moby Grape ´69', puxado para o country e o rhythm´n´blues. Já sem Mosley, o trio remanescente fez "Truly Fine Citizen" em 70, um disco ainda mais voltado para a música de raízes e que foi o real epitáfio da banda. Mais tarde, Mosley também abandona o barco, ops... quero dizer, entrar no barco, porque resolveu mudar de vida e tornar-se marinheiro.

Depois disso, seus membros tentaram se reunir por várias vezes, eventualmente usando nomes diferentes, devido ao fato de um antigo manager possuir a posse legal da marca Moby Grape.

É bom lembrar que ainda em 1971, houve uma reunião do quinteto original que daria como fruto o  álbum “20 granite creek”, um interessante trabalho produzido por David Rubinson. Moby Grape continuaria aparecendo e desaparecendo de cena, convertidos com o passar dos anos em um grupo de culto e atuando em pequenos locais para o deleite de plateia.

Alexander “Skip” Spencer faleceria em 16 de abril de 1999, por problemas derivados de sua saúde mental – ele nunca bateu muito bem mesmo da cabeça. Bob Mosley, por sua vez, iria ser diagnosticado com esquizofrenia.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

OLIVER (1969) - OLIVER SWORFORD


A música “Good Morning Starshine” é uma canção bastante conhecida, e querida, que foi tema do musical da Broadway Hair, em 1969, como também do filme de mesmo nome, só que realizado em 1979, portanto, 10 anos depois. Quem cantava a esta linda música era um rapaz com ares de bom moço, que poucos por essas plagas o conhece; trata-se, portanto, do cantor Oliver, que era praticamente um cantor de singles no EUA.

William Oliver Sworford era um músico pop, que começou a cantar em sua terra natal, na Carolina do Norte no início dos 1960. De início em grupos pop´s (The Virginians e The Good Earth), mas foi como cantor solo que emplacou seus poucos sucessos, entre eles, a balada “Jean” do filme The Prime of Miss Jean Brodie. No entanto, aqui no Brasil seu grande sucesso mesmo foi “Good Morning Starshine”.

Em 1969 foi lançado o LP “Oliver”. O mais interessante neste LP está nas adaptações de “In My Life” dos Beatles e na de “Ruby Tuesday” dos Rolling Stones. Também podemos destacar o único tema composto por Oliver “The Arrangement, com bonitos detalhes de orquestra de Hutch Davie, colaborador habitual do produtor Bod Crewe. Ademais, temos os êxitos de “Good Morning Starshine” e “Jean”.

Oliver, infelizmente, com o tempo foi caindo no esquecimento, sem nunca conseguir repetir seu sucesso nos anos 60. Acabou abandonando a música para se dedicar a carreira de negócios. O músico veio a falecer em 12 de fevereiro de 2000, com câncer, apenas 10 dias antes de completar 55 anos de idade.

terça-feira, 1 de junho de 2010


Um quase primeiro disco dos Beatles

Tony Sheridan no final do ano passado fez um megashow na praia de Camburi, em Vitória, no Estado do Espírito Santo, para cerca de 12 mil pessoas no Reveillon de 2009. Quase nada se falou sobre essa passagem do músico inglês no Brasil. Fato lamentável, pois o músico acabou entrando para história da música por ser o primeiro músico a gravar com os Beatles (você achou que era o Eric Clapton?)

Mas quem é Tony Sheridan?
Ele foi um músico de rock inglês que fez um certo sucesso no início dos anos 60, sendo o primeiro artista a tocar guitarra elétrica em um programa de televisão na Inglaterra; mas sua maior proeza foi ter lançado os Beatles no mundo do disco em 1961 – não vale contar com o single de In Spite of All The Danger lançado anteriormente, porque eles ainda assinavam como Quarrymen.

Tony Sheridan conheceu os Beatles na Alemanha, em uma das várias viagens que os Beatles fizeram para Hamburgo. Naquela época vários grupos ingleses tocavam em clubes alemães, como os Hurrycanes (com Ringo Starr na bateria) ou Tony Sheridan. Faziam um agitado circuito de boates e clubes de strip-tease como o Star Club, o Top Ten ou o Indra. A maior parte do público dos shows (além de marinheiros e prostitutas) era formado por roqueiros, que se vestiam à moda teddy boy, de couro e cabelos gomalinados. Foi nessa época que também eles começaram a tomar outras anfetaminas para aguentarem a barra de tocarem durante longas horas como as Black Bombers e Purple Hearts - só anos depois que Bob Dylan apresentaria a eles a maconha.

Foi nesse cenário que, em abril de 1961, voltaram a Hamburgo para tocar no Top Ten, que lhes fornecia um quarto acima da boate, ao lado de onde morava Tony Sheridan. Quando Sheridan recebeu um convite para gravar para a Polydor alemã, levou com ele os Beatles como banda de apoio. Lançaram um EP com "My Bonnie", "Why", "Ain’t She Sweet" (cantada por John) e a instrumental "Cry for a Shadow".  O disco foi lançado em agosto de 1961, e os quatro rapazes de Liverpool (que ainda contavam com Stu Sutcliff, no baixo) foram chamados de The Beat Brothers, pois acharam que o nome Beatles iria causar confusão.

Mais tarde esse EP, acrescido de demos e gravações ao vivo, foi lançado em LP, que ao longo dos anos foi mudando de capa e de nome como "The Beatles In Hamburgo", The Early Tapes of The Beatles e The Beatles featuring Tony Sheridan In The Beginning.


Logo após gravarem o EP com Sheridan, é quando John e Paul viajaram a Paris de carona, onde adotaram o visual estilo “mob”  e os cabelos penteados para frente (moda dos "exis") ao visitarem o amigo alemão Jürgen Collmer, que estava morando em Paris. Collmer fazia parte da turma dos “exis”, um grupo de jovens universitários intelectualizados. Entre eles também se encontrava a fotógrafa Astrid Kirshner e o artista Klaus Voorman (que criou a capa do Revolver, 1966).