domingo, 20 de dezembro de 2009

Peter Tosh



Winston Hubbert McIntosh foi uma dessas pessoas inquietas que parecia carregar uma urgência na alma. Nasceu em agosto de 1944; não conheceu seus pais. Foi criado pela tia, que o deixou perambulando pelas ruas de Trenchtown, a famosa favela de Kington, Jamaica. Em um dos poucos cuidados ao sobrinho, ela o presenteou com um violão em frangalhos.

Tosh já conseguia tirar algumas notas quando conheceu Bob Marley e seu meio-irmão Bunny Livingstone. Eles formaram os Wailing Wailers, que mais tarde seriam rebatizados como Wailers e depois Bob Marley & The Wailers. Quando viu seu amigo (Bob havia roubado sua namorada, Rita Anderson, mas continuara amigo) ser alçado à liderança do grupo, Peter Tosh saiu em carreira solo. Que foi tocada aos trancos e barrancos, mas deixou obras significativas. Guitarrista e cantor com voz de barítono, Tosh estava gravando seu álbum quando policiais jamaicanos invadiram o estúdio - no exato momento em que Tosh colocava os vocais. O cantor foi espancado e jogado num canto do hospital. O atendimento demorou horas - quem chegasse ao local era "convidado" pela polícia a dar uma olhada no estropiado rastman. Foi uma espécie de aviso aos Wailers, que começavam a incomodar os poderosos da Jamaica.

Legalize It saiu em 1976. A música-tema pedia a liberação da erva e sua mensagem até hoje é contundente. O disco teve participações das I-Threes e de diversos instrumentistas dos Wailers, como Aston "Family Man" Barret e Seeco Patterson.
A amizade entre Bob e Peter - que sofreu uma ligeira balançada com a saída de Tosh da banda - Winston azedou de vez naquele ano. Um dia, quando saía da Island House (a mansão que Bob ganhou de Chris Blackwell, dono da Island), o carro que levava Tosh e sua mulher, Yvonne, foi atingido por um motorista bêbado. O cantor quebrou várias costelas e Yvonne morreu depois de vários dias em coma. O "Mystic Man" atribuiu o acidente aos espíritos malignos que dominavam a casa dos Marley.

Equal Rights foi lançado em 1977. É um trabalho mais bem-resolvido, com participação de Sly & Robbie e canções que caceteavam o injusto establishment jamaicano. Como "Equal Rights", em que Tosh brada: "Todo mundo quer ir para o céu/ Mas ninguém quer morrer/ E eu digo: nós nunca teremos paz/ Até o dia em que tivermos direitos iguais e justiça". O disco também mostrava manifestações de africanismo ("African"), uma regravação dos Wailers ("Get Up, Stand Up") e uma canção roubada de Joe Higgs ("Stepping Razor").

A repercussão de Equal Rights chamou a atenção de Mick Jagger e Keith Richards, que estavam formando o cast da Rolling Stone Records. Peter Tosh lançou pelo selo Rolling Stones Records seu melhor disco: Bush Doctor (1978), uma paulada certeira com pitadas de soul music americana ("Don´t Look Back", dos Temptations, um dueto com Mick Jagger), recordações dos tempos de wailer ("Soon Come", "I´m The Toughest") e novas exaltações à cannabis ("Bush Doctor", que tem uma ajudinha da guitarra preguiçosa de Keith Richards).

Tosh buscou sempre o confronto para sustentar a sua rebeldia. Durante um concerto para o primeiro-ministro da Jamaica, fumou maconha no palco e soltou fumaça para as autoridades - semanas mais tarde, teve a mão esmigalhada por policiais durante uma batida. Keith Richards teve a ousadia de pedir de volta a casa em Ocho Rios que havia emprestado para Tosh – o negão não queria sair de lá nem a pau. Foi ameaçado de morte. Conclusão: a Rolling Stones Records deu cartão vermelho para o rasta.


Os brasileiros puderam conferir a audácia de Tosh em 1980, quando ele tocou no Festival de Jazz de São Paulo. Foi uma das melhores apresentações na história dos shows no Brasil: acompanhado de uma superbanda, ele entrou no Palácio das Convenções do Anhembi vestido de egípcio e levou o público à loucura. Deu golpes de caratê no ar e fumou toda a maconha que havia em São Paulo.

Peter também deu o ar de sua graça na novela Água Viva, de Gilberto Braga. Ele cantou "Legalize It" tendo Fábio Jr. nos vocais de apoio. Três anos depois, o cantor deu um cano federal em empresários brasileiros que o contrataram para apresentações aqui. Pegou o dinheiro, alegou "dores nas costas" e ficou curtindo o sol de Kingston.

Em 1987, Peter Tosh devia para Jah e o mundo e estava sujo e sem crédito na praça. Devia até dinheiro de drogas para uma turma de bandidos de Kingston. No dia 11 de setembro daquele ano, a galera do mal foi cobrar a dívida e não admitia voltar de mãos vazias. Tosh se recusou a atender os caras e morreu com quatro balaços no peito.





Origem do Reggae

Reggae é uma música que venho com a desaceleração do ska e com uma “cozinha” marcando mais forte o rítmo da música. O som é melódico e pusante. Além do ska, o reggae tem influência do mento (uma espécie de música folclórica da Jamaica) e do steady (muito similar ao reggae).

A palavra reggae, significa “pertencente ao Rei.” Outras fontes aludem que a palavra reggae seja apenas uma corruptela de ‘ragged’ (esfarrapado). Na segunda metade dos anos 60, quando o reggae surgiu, tornou-se a música da juventude e também o principal veículo das manifestações dos rastafaris. O reggae passa também a ser referido como o rítmo de Jah (Deus)

A crença do rastafari vem de interpretações da Biblia Sagrada, principalmente o Velho Testamento. Basicamente, eles absorveram preceitos católicos e judaícos. No entanto existe uma grande variação de ‘tribos’, termo herdado do judaísmo, dentro da religião, cada uma praticando sua adoração de uma forma diferente. Como regra, todo rastafari venera o Rei Haile Selassie I como o Imperador do Mundo e o Deus na Terra. Ele é tido como o Rei dos Reis, Senhor de todos os Senhores e o leão conquistador das tribos de Judá.

O precursor do rastafari foi um sujeito que era uma espécie de guru e profeta chamado Marcus Garvey, que já nos anos 40 pregava a “consciencia negra”. Tal elemento “profetizou” que um rei Africano seria coroado como o messias negro. Esse “messias” era o citado Rei Haile Selassie I, o Primeiro Regente de Etiópia, Ras Tafari, anunciou que ele era descendente legítimo do Rei Salomão e da Rainha de Sheba. Ras Tafari foi então coroado Rei de Etiópia, mudando seu nome para Rei Haile Selassie I.

Pela forte influência judaica, diziam que o negro era o herdeiro legítimo da tribo de Israel. Esta noção vem do Velho Testamento, Jeremias 8:21, onde há a afirmação, “Eu sou negro.” O rastafari condena a carne de porco e geralmente é incentivado a simplesmente evitar comer carne. Seu estilo de cabelo, conhecido como dreadlocks, tem na origem de seu nome a intenção de desafio. No entanto, o tratamento dado ao cabelo, vem novamente de uma interpretação da Bíblia, onde em Numero 6:5 se jura não cortar o cabelo.

O rastafari, ou simpelsmente rasta, com seus dreadlocks, representa a juba do leão de Judá. O uso de maconha como auxílio para meditação e adoração a Deus, também tem sua origem em uma distinta interpretação da Bíblia, especificamente Genesis 1:12 e 2, como também Samuel 2:29, onde se faz alusão à “sabedoria da erva.”

2 comentários:

Adri disse...

O que me impressionou foram os episódios de acidentes e aquele bem no dia 11 de setembro! Algumas coisas sobre a origem do reggae você já tinha me contado, mas muita coisa eu não fazia a mínima ideia!
Gostei da foto com o Mick Jagger.
Excelente post, só pra variar...

Mary Joe disse...

Gostei muito de saber isso tudo. Adorei o tom meio irônico meio blasé, com que vc contou a saga do Peter Tosh. Lembro vagamente dele. Estava puxando pela memória, e realmente, acho que já tinha ouvido.

E a aula de reggae foi ótima. Vc realmente escreve muito bem.
Beijokas
Mary Joe