domingo, 9 de agosto de 2009

Depeche Mode: atravessando gerações


Houve um período no qual pela primeira vez teclados e sintetizadores tomaram conta da música pop. Refiro-me, claro, ao tecnopop da virada dos anos 80. A grande diferença para hoje é que os artistas que adotavam este gênero não contavam com DJs fazendo música, e sim com cantores chegados num vocal intenso e dramático; foi dentro desse cenário que surgiu o Depeche Mode. O grupo inglês estreou em 1980, com sintetizadores saltitantes e ritmos programados, explorando o lado menos cabeça do Kraftwerk.
Vince Clarke, Andy Fletcher, Martin Gore e Dave resolveram formar o Composition Of Sound - que logo mudaria para Depeche Mode - ainda em Basildon, uma cidade não muito distante de Londres. Em 1981, Vince Clarke apareceu com Just Can’t Get Enough, levando o Depeche Mode ao oitavo lugar nas paradas. Compositor oficial, ele deixou o grupo no auge do primeiro álbum, Speak And Spell, preferindo integrar o Yazoo e, depois, o Erasure. Martin Gore assumiu a função de Clarke e passou a produzir canções que viriam a manter a banda em evidência por pelo menos mais duas décadas.
O segundo álbum, A Broken Frame (1982), tem a primeira de uma série de grandes capas com imagens "stalinistas", belos momentos de tecnopop adolescente e naïf (A Photograph Of You, The Meaning Of Love) e boas canções sobre o amargor das primeiras desilusões. O sado-masoquismo estilizado e asséptico exaltado no Erotica (1992) de Madonna não foi nenhuma novidade. O DM, que sempre abusou do visual com couro e correntes, escancarou o tema em Master And Servant (84) – só os desavisados pensaram que Madonna estava “quebrando” tabus.
Os grandes criadores e pioneiros de tecno e de house em Detroit e Chicago, consideram como Everything Counts(83) e Get The Balânce Right (84), clássicas obras-primas e modelos de inspiração. E a sufocante onda atual de fazer dezenas de remixes para uma faixa só foi antecipada por Strangelove (87) e seus quinze remixes. Music For The Masses (1987) traz três clássicos à prova do tempo: a irresistível Strangelove, que no Brasil tocou primeiro nos bailes funk, Never Let Me Down Again e Behind The Wheel. Violator, de 1990, é um dos mais belos trabalhos do grupo; Enjoy the Silence, foi grande hit do álbum.
Foi logo após estes dois trabalhos de grande sucesso que um período turbulento começou: heroína demais, festas intermináveis ao longo de turnês que chegavam há durar um ano e meio (sem pausa), culminando com a tentativa de suicídio do vocalista. David chegou a ser considerado morto clinicamente, a exatos sete minutos de morte clínica. Em meio a essa turbulência que sai Songs Of Faith And Devotion (1993), com o grupo descaracterizado e frertando com o grunge, sendo que eles nunca foram uma banda de guitarras. Martin Gore acerta uma balada, One Caress, com luxuoso arranjo de cordas. Os rostos infantis e as roupas coloridas são definitivamente sepultados por casacos de couro e caras de sodomita malvado.
Em 1997 é lançado Ultra, bem mais dark e melancólico refletindo a crise interna da banda, repleto de baladas soturnas de Martin Gore. Como quase todas as bandas de sua época, o lançamento de novos trabalhos se tornou cada vez mais esporádico. Mas no novo século vieram bons trabalhos, Exciter (2001), Playing the Angel (2005) e o recente Sounds of the Universe (2009).
Poucos grupos conseguiram amadurecer com a mesma garra e força do Depeche Mode. Da formação techno pop extremamente funcional e sem maiores ambições no começo dos anos 80 ao denso e sofisticado conjunto de art-rock que avança pelo novo século, a banda empreendeu uma viagem solitária. Enquanto seus colegas de geração contentam-se com a prática de canções sem frescor.
Assista a estes dois vídeos de fases diferentes do Depeche Mode. Todas as duas maravilhosas, sendo que Everything Counts marcou eternamente minha adolescência.

3 comentários:

Adri disse...

Foi um dos melhores posts do seu blog até hoje. Não pela relavância da banda em si, mas pela riqueza de detalhes descritos. Depeche Mode é uma banda muito querida das pessoas q têm minha idade. Muita gente q eu conheço teve a vida marcada por eles. E eu vejo sempre alguém comentando no meu Twitter sobre eles. Até recomendei lá para lerem seu post.
Parabéns, vc está melhorando sempre mais!

Mary Joe disse...

Um belo post. Alias, adorei a nova cor do blog. Ficou moderna e clean.
Voltando ao post, adorei saber que o Vince Clark ja´foi do Depeche Mode. Confesso que o conheci já no Yazoo, que era uma das bandas que eu gostava muito. E claro, adorei a estrepolia do Erasure.

Mas voltando ao Depeche Mode,não sabia de bastante coisa, como por exemplo das referências sado do segundo disco.
E nem sabia das quinze versões de Strangelove, que é uma das minhas canções favoritas de todos os tempos.
Na verdade, já conheci o Depeche, com o Violator, onde "A question of lust" embalava minhas meditações adolescentes. Sempre a achei superior a Enjoy the silence, que foi o hit.

Os videos que vc colocou são lindos. E confesso que foi uma delícia essa viagem musical que seu post propôs.
Seu blog está cada vez melhor.
Beijo carinhoso
Mary Joe

Mary Joe disse...

Retificando: era do Black Celebration,"A qeustion of lust"... Aff, tem hora que acho que estou ficando velha, rs