domingo, 5 de outubro de 2008

Neil Young: O Último Rebelde do Rock


Lembro que um destes Hollywood Rock que teve aqui no Brasil, Neil Young foi convidado a participar. Quando o velho bardo soube que era para um evento de uma multinacional, ele negou, como negou também tocar no Free Jazz. Ele deixou bem claro que não iria tocar aquelas canções com uma marca de cigarro o patrocinando. E vemos estas bandas ditas “rebeldes” que dizem serem contra o status quo e ao mesmo tempo se vendem por pouco. Muita gente à época achou isto estrelismo, mas para mim isto é a verdadeira rebeldia.
Estas coisas só fazem gostarmos ainda mais dele. Recentemente um cientista batizou uma nova espécie de aranha com o nome de Neil Young, Myrmekiaphila neilyoungi. Escolhi Young porque gosto muito de sua música e o admiro e respeito pela militância a favor da paz e da justiça”, justifica o biólogo da JasonBond, da Universidade de East Carolina, Estados Unidos.
Neil, filho de uma família classe média de Toronto - o pai, um conhecido repórter esportivo -, cresceu em Winnipeg, também no Canadá, depois do divórcio dos pais. No início dos anos 60, formado no ginásio - e em bandas de garagem -, ele voltou a Toronto e integrou-se ao circuito de bares folk que, à semelhança do Village em Nova York, atraíam e alimentavam novos talentos (como os do grupo que mais tarde se chamaria The Band e tocaria com Bob Dylan). Nesse circuito, ele conheceu Stephen Stills, Richie Furay e a também cantora canadense Joni Mitchell, e compôs uma das canções pela qual seria sempre conhecido, "Sugar Mountain".
Em 66, aos 21 anos, intuindo que as possibilidades canadenses de sua vida tinham se esgotado, Young pôs ruma a estrada, direto para a Califórnia, trazendo o baixista Bruce Palmer no banco de carona. Conta-se a lenda que ele conheceu Stephen Stills e Richie Fury no caminho. Tudo teria sido muito diferente se Young tivesse se deixado ficar em São Francisco onde, em 66, Timothy Leary e Ken Kesey distribuíram ácido lisérgico de graça, com o Grateful Dead e o Jefferson Airplane fazendo a trilha sonora.
Seu primeiro trabalho é com uma das bandas seminais do "som de Los Angeles": o Buffalo Springfield de Stephen Stills e Richie Furay. Embora Young escreva boa parte do repertório da banda - "Mr. Soul", "I Am A Child", "Broken Arrow" -, sua voz esgarçada e sua guitarra psicótica estão sempre em segundo plano, na ordem soft das coisas preconizada por Stephen Stills.
Era muito difícil chegar a algum consenso tendo três compositores (e egos) tão antagônicos como Young, Stills e Furay numa mesma banda. Stills foi se juntar a David Crosby dos The Byrds e Graham Nash dos The Hollies no Crosby, Stills and Nash , Furray montou o Poco e Neil Young seguiu carreira solo.Com ajuda do sucesso do Bufallo Springfield, não foi difícil para Young conseguir um contrato com a Reprise Records, iniciando uma duradoura colaboração que durou mais de dez anos.
A produção de Young na virada dos 60 para os 70 é exemplar das múltiplas faces de L.A., de sua capacidade simultânea para a anestesia e para a dor. Young alterna sua participação no CSNY - onde sua voz sempre soa quase alienígena, descosturando o bordado harmônico delicado dos outros três - com álbuns individuais de extrema doçura (e previsibilidade) folk (After The Gold Rush, Haruest) ou pesadas reflexões sobre drogas, alienação, apatia e loucura - Tonights The Night, On The Beach , Zuma.
Depois de por uma fase “punk” na qual tocou com o pessoal do Devo. Daí nasceu a inspiração para dois álbuns de lançamento praticamente simultâneo, Rust Never Sleeps e Live Rust, um filme-concerto e uma excursão, projetos que num todo, abordavam a transitoriedade do estrelato na cena rock. Destes, Rust Never Sleeps mostrou-se magistral, trespassado por guitarras saturadas, letras mordazes - é dele o mote "antes queimar do que enferrujar" - e um punhado de canções em sintonia com a urgência daqueles tempos.
Durante os anos 80, Young continuou fazendo jus à fama de imprevisível, ao registrar uma série de LPs - Trans, Everybody´s Rockin, Old Ways, Life etc - em que se exercitava em estilos tão diversos quanto o rockabilly, o jazz das big-bands e a música eletrônica. Nesta época ele foi acusado pela gravadora Geffen de “não ser ele mesmo”, portanto, foi expulso da gravadora.
Na década de 90, após o excelente álbum Freedom, Neil Young é “descoberto” pela cena Grunge, bandas como Nirvana, Sonic Youth e Perl Jarm – que chegaram a gravar um álbum com ele, Mirroball, - foi chamado de “vovó do grunge e gravou zoeiras como “Ragged Glory” e o ao vivo Weld. Logo depois, cansado de fazer barulho volta ao estilo folk com Harvest Moon, e a tão esperada seqüencia de Harvest de 72.
Neil Young entrou no novo século com sua variedade de estilos, ora elétrico, ora acústico, como o ignorado Are You Passionate e o belíssimo Silver And Gold, dedicado a Pegi, com quem o canadense é casado há 21 anos, o disco exalta, a partir de simples e gentis canções acústicas, a beatitude proporcionada pela vida doméstico-familiar rancheira.
Em 2005, o cantor sofreu uma intervenção cirúrgica no cérebro, em decorrência de um aneurisma. Antes da cirurgia ele correu para o estúdio e registrou oito músicas, pensando que seria seu adeus artístico. Muitos fãs pensaram que o perderia, mas a operação foi um sucesso e ele grava Prairie Wind, embora longe de ser uma obra-prima contém uma de suas mais belas baladas, It´s A Dream.
Neil Young continua sua trajetória e promete um novo disco para 2008, recentemente tocou no Rock in Rio em Lisboa, fazendo até cover dos Beatles “A da yin the Life”. Para quem achou que ia morrer em 2005, continua muito bem. Vida longa, ao velho mestre!

Um comentário:

Adri disse...

Puxa, que post! Fodástico! Adorei isso de "último rebelde do rock". realmente... é isso q ele é! esses punks de boutique e emos que não se assumem nunca vão chegar nem ao pó das botas de Neil Young!

Apesar de ele ser eclético no que faz e tocar super bem tanto a guitarra quanto o violão elétrico (bem como ninguém, diga-se de passagem), eu realmente gosto de Young acústico. Eu senti falta de alguns registros... Por exemplo, vc se se lembra q o Renato Russo, no acústico Legião Urbana cantou um cover dele?

também gosto do disco CSNY - o que tem Sanibel e slowpoke!

Silver & Gold é maravilhoso! considero como sua masterpiece!... talvez essa identificação minha esteja de acordo com as palavras que usou para descrever é porque o álbum foi feito... não poderia dizer nada melhor do que o que você disse! e vc sabe o que eu quero dizer com isso...

beijos da sua...