sábado, 28 de junho de 2008

A Bossa é Nossa


A Bossa Nova – desde o lançamento de “Chega de Saudade” de João Gilberto em 1958 – tornou-se um fenômeno musical até meados de 1965 no Brasil. Até então, a Bossa Nova imperava em vendas de discos, até porque não tinha surgido o programa da Jovem Guarda e nem o estrondoso sucesso de Roberto Carlos “Quero que vá tudo pro inferno”.
O Brasil inventou a Bossa Nova, mais especificamente nas mãos de um rapaz de 27 anos, nascido em Juazeiro, Bahia. E naquele início de 1960 muito se falava de uma tal Turma da Bossa Nova, que se reunia em apartamentos da zona sul carioca. Liderados pelo jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli – um chato, como é toda a família Bôscoli -, a turma era composta por jovens como Carlos Lyra, Roberto Menescal, Nara Leão, Durval Ferreira e Chico Feitosa. Enfim, uma gente muita chata, que se achavam detentores do novo estilo – como se fosse eles que inventaram. Talvez, por causa deles, até hoje, a Bossa Nova é vista como música de elite.
Em 1960, surgiu Elis Regina, que em seus dois primeiros discos cantava boleros e sambas, depois de passar por vários programas de TV no eixo Rio-São Paulo, ela entra para o histórico programa “O Fino da Bossa” que foi ao ar no dia 19 de maio de 1965. E foi um grande sucesso; e era apresentado por ela e Jair Rodrigues. Isto fez com que o LP “Dois na bossa”, com Elis Regina e Jair Rodrigues. Lançado pela Philips em maio de 1965, batesse todos os recordes de vendagem, atingindo a cifra de 500 mil cópias. Nunca até então um LP tinha vendido tanto no Brasil. Elis Regina tornou-se a maior estrela da música popular brasileira; seu cachê era o maior do nosso show business; e seu programa, "O Fino da Bossa", era o musical de maior audiência da televisão.
Em 20 de dezembro, a cantora gravou o último programa do ano e viajou para uma temporada de férias na Europa, deixando a apresentação do programa temporariamente com Peri Ribeiro e Wilson Simonal. Ficaria por lá dois meses e meio, e partiu com a certeza de que a liderança de audiência e de vendagem de discos estaria assegurada até sua volta. Só que foi aí que surgiu “Quero que vá tudo pro inferno”, de Roberto Carlos.Quando Elis Regina retornou, em março de 1966, encontrou um cenário musical transformado. O cantor mais badalado, comentado e requisitado era Roberto Carlos; o disco mais vendido era “Quero que vá tudo pro inferno”, e o musical de maior audiência da nossa televisão era o Jovem Guarda. Iria começar a guerra da MPB contra o iê-iê-i ê - infelizmente era assim que chamavam o rock feito no Brasil naquela época, ninguém até hoje sabe ao certo quem teve a triste idéia de inventar este termo, sobrou até para os Beatles, que tiverem seu disco “A Hard Day´s Night” impresso aqui com o título “Os Reis do iê-iê-iê.
Nisto Elis Regina, que tinha um ego muito grande e não aceitava derrotas, começou a movimentar campanha contra a Jovem Guarda. Nos bastidores do Teatro Record, foi afixada uma proclamação que não deixa dúvida do clima de radicalismo. "Atenção, pessoal, O Fino não pode cair! De sua sobrevivência depende a sobrevivência da própria música moderna brasileira. Esqueçam quaisquer rusgas pessoais, ponham de lado todas as vaidades e unam-se todos contra o inimigo comum: o iê-iê-iê." Mas O Fino acabaria saindo do ar em 19 de junho de 1967. Dias antes, no Show do Dia 7 daquele mês, Elis Regina entrou no palco após um aplaudido número de Roberto Carlos e mandou logo um recado: "No dia 19, O Fino será apresentado no Paramount com a presença de Vandré, Jair, Gil e outros. Será a nossa redenção. Vamos ver quem vai ficar, quem vai sair". Depois de cantar seu número emendou: "Quem estiver do nosso lado, muito bem, quem não estiver que se cuide".
Em 17/07/67, o pessoal da MPB - antes de 1965, a música popular brasileira de origem universitária era chamada genericamente de bossa nova, mas, quando Roberto Carlos despontou como um artista de projeção nacional, a música de origem universitária, ou a nova bossa nova, passou a ser chamada de MPB - saiu às ruas de São Paulo, no que ficou conhecido como “Passeata contra a guitarra elétrica” dentre os quais se encontravam Elis Regina, Edu Lobo, Jair Rodrigues, os integrantes do MPB-4 e Gilberto Gil, antes de sua fase tropicalista. Muitos jovens estudantes e músicos daquela época defendiam uma música popular que fosse genuinamente brasileira e que refletisse a insatisfação com a situação do país e o descontentamento que as pessoas sentiam, mas não podiam expressar por causa da falta de liberdade de expressão. Assim, muita gente compareceu às ruas para protestar contra a pobre guitarra elétrica que, naquele momento, simbolizava a presença do imperialismo norte-americano, e para mostrar aos músicos ligados ao iê-iêi-iê que aquelas historinhas de "calhambeque" e "lobo mau" não estavam com nada...
Esta palhaçada toda só teve fim com o advento do Tropicalismo, liderado por Caetano Veloso e Gil (este parece que estava meio perdido de que movimento queria participar) procuravam universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodélica e a guitarra elétrica. O Tropicalismo misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais rumba, mais bolero, mais baião. Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no País. Curioso dizer, que Nara Leão entrou para este movimento, sendo que ela era totalmente contra a Jovem Guarda, e fazia parte da turminha de preconceituosos da zona sul do rio, a “Turma da Bossa”.
Hoje a visão da música feita no Brasil mudou. Tudo que é feito aqui independente de ser rock, sertanejo, MPB é considero música brasileira. Engraçado que entre 67 e 68, em que dizem que os jovens protestavam contra a rigidez do sistema ditatorial, que eram a favor da liberdade de expressão, ao mesmo tempo eram cheios de preconceitos musicais, pois, Elis Regina, Geraldo Vandré e Gilberto Gil, etc. eram todos muito jovens à época.
Mas ninguém sofreu no meio desta guerra musical (ou seria comercial?) do que Roberto Carlos. Ele era o líder da juventude, o líder do Jovem Guarda, e fazia uma música considerada “americana” . Muitos destes artistas que cantam com ele nos atuais shows de fim-de-ano da Globo, atacavamo-o naquele período, como Maria Bethânia e acabou tornando-se uma grande fã de Roberto. Por muitos anos, Roberto Carlos guardou mágoa de vários artistas. “Um dos poucos de quem não tenho mágoa é do Chico Buarque de Hollanda, que me parece um ótimo sujeito", disse o artista alguns anos depois. De fato, Chico Buarque não entrou na roda-viva de críticas ao ídolo da jovem guarda e por isso ganhou para sempre a simpatia de Roberto Carlos. "Para os meus ouvidos de bossanovista, o iê-iê-iê seria uma heresia, mas na época eu já era menos radical e a minha relação com o pessoal da jovem guarda foi sempre cordial", afirma Chico Buarque.

Um comentário:

Adri disse...

Eu sempre gostei muito de bossa nova. Esse seu post foi até hoje o mais completo que eu li sobre como isso surgiu. Alguma coisa eu já sabia. Mas me desaponta ninguém nunca ter mencionado como exatamente esse termo foi cunhado. A palavra bossa vem do francês bosse, que significa protuberância no osso... simplemente o galo! e o que isso tem a ver com bossa? e o que tem a ver com nova? forçando muito... uma possível tradução para o termo seria: nova tendência (sentido figurado para o termo bossa). isso explica alguma coisa, relacionando com tudo isso que relatou aqui??? me responda, quando possível! depois eu te conto da minha resposta...
beijos