quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A Morte


Na nossa educação – ocidental principalmente – aprendemos a lidar com muitas coisas, segundo um plano pré-ordenado. Passamos à infância e a juventude sendo educados, ou melhor, aquilo que na nossa cultura capitalista e judaico-cristã impõe para nós como verdades. Achamos então um emprego e encontramos alguém com quem nos casamos e temos filhos. Compramos uma casa, tentamos ser bem-sucedidos em nosso negócio e lutamos por sonhos como os de possuir uma casa de campo ou um segundo carro. Saímos de férias com os amigos. Planejamos nossa aposentadoria. Os maiores dilemas com que muitos de nós nos defrontamos são onde vamos passar o próximo feriado ou quem convidaremos para o Natal. Nossas vidas são monótonas, insignificantes e repetitivas, desperdiçadas em busca de banalidades, porque parece que não conhecemos nada melhor.
Mesmo com várias religiões dando explicações sobre a morte, com seus dogmas às vezes infantis, a dúvida, o medo e perda que este nome carrega, fala mais forte dentro de nós. Isto quer dizer que a maior parte do mundo vive negando a morte ou aterrorizada por ela. E para muitos é um tabu! Quando o assunto é morte, ouvimos logo protestos como este: “Pode parar! Com este papo ruim, mórbido, eu quero falar de coisas boas e não de coisas fúnebres”. Se até o assunto é negado, imagina quando a própria morte bate a porta da sua existência? Damos demais importância para nós mesmo; e jamais admitiremos que a morte seja maior do que nossos valores transitórios. Às vezes, somente temos certa abertura, quando perdemos um parente próximo; mas como toda dor passar – e as alegrias também - afinal, “a vida continua...”, voltamos a nossa atenção para este mundo transitório. Poucas pessoas aproveitam a dor da perda para dar um salto mais alto de consciência. Cabe lembrar, que morremos todas as noites, quando dormimos e perdemos temporariamente a consciência ordinária para o mundo onírico. Devíamos pensar todas as noites antes de dormir, sobre quem é este “eu” que sonha, quando o corpo fica deitado, e que a morte pode ser algo que dê continuidade a vida além do corpo. Deveríamos perguntar sempre: “E se eu morrer agora, neste exato momento?”
O mundo nos entretém tanto, que não paramos nem para pensar o que é a vida. Se não sabemos o que é a vida, a morte, muito menos ainda. Mas estes questionamentos não são interessantes para nosso mundo pragmático. Como também se diz por aí: “quando eu morrer eu fico sabendo o que é a morte”. Preferíamos refugiarmos e acreditarmos numa identidade pessoal única e separada, mas se ousarmos examiná-la descobrirá que essa identidade depende inteiramente de uma série infindável de coisas que a sustentam: nosso nome, nossa “biografia”, nossos companheiros, família, lar, emprego, amigos, cartões de crédito... É nesse suporte provisório e frágil que apoiamos nossa segurança. Assim, quando isso tudo nos é retirado, será que sabemos de fato quem somos? Mas a morte é muito mais poderosa do que qualquer ego exaltado, destrói qualquer ilusão de si mesmo e nos expulsa do nosso abrigo seguro. Abrigo mantido por uma sociedade, que prega em suas publicidades adorar a “vida”, que fala sem parar sobre fazer as pessoas “felizes”, mas te impele a nunca olhar para dentro de si. Talvez somente aqueles que compreendem como a vida é frágil saibam o quanto ela é preciosa.

2 comentários:

Adriana disse...

você sabe como eu penso sobre esse assunto e, por isso, vou poupá-lo de um longo comentário. a frase final foi o MELHOR de tudo!
bj

Maria José disse...

Gostei. Geralmente, Cláudio, vc me deixa sem palavras. Dessa vez vc se superou